Por quase vinte anos, o Castello Tricerchi teve tudo que precisava pra fazer um grande Brunello — vinhedo próprio, solo de argila e areia a 290 metros de altitude, um castelo do século 15 com adega natural nas próprias masmorras — e escolheu não fazer. As uvas plantadas em 1995 por Emanuele Squarcia, advogado de profissão mas com coração de vinhateiro, iam embora pra cooperativa Geografico, vendidas a granel, sem nunca virar garrafa com o nome da família.
A reviravolta tem nome: Tommaso Squarcia, nascido em 1988, ex-jogador de futebol, décimo sétimo da linhagem Tricerchi a herdar aquele pedaço de terra ao norte de Montalcino. A família nunca foi de vinho — o negócio histórico dos Squarcia era uma farmácia bem-sucedida em Roma. Mas Tommaso decidiu dedicar a vida ao que a terra da família já produzia havia gerações sem nunca ser aproveitado por inteiro. Em 2013, ele e o tio Emanuele decidiram parar de vender uva e começar a engarrafar vinho próprio.
O salto de qualidade veio dois anos depois. Em 2015, um encontro quase acidental com Maurizio Castelli — o "sangiovesista" que assina consultoria pra nomes como Mastrojanni e Ragnaie — mudou o rumo da propriedade. A conexão foi imediata: Castelli compartilhava a mesma crença de Tommaso, de que o vinho devia ser expressão pura da uva e do terreno, sem artifício de adega escondendo o que a terra já entrega sozinha. Um ano depois, a parceria virou oficial, e foi aí que as coisas realmente decolaram.
O resultado é um Brunello de estilo propositalmente tradicional: fermentação longa com leveduras nativas, maceração de 30 dias em tanques de aço a temperatura controlada, envelhecimento em grandes botas de carvalho da Eslavônia — nada de barrica pequena francesa escondendo o Sangiovese atrás de madeira nova. O blend nasce de três parcelas dentro da propriedade — Vigna del Castello, Vigna del Velo e Vigna dei Cipressi —, cada uma com exposição diferente, todas plantadas em solo misto de argila e areia que dá ao vinho elegância e longevidade em vez de potência bruta. A garrafa mais especial da casa, a Riserva "Anno Domini 1441", carrega no próprio nome o ano em que o castelo foi concluído — um jeito direto de lembrar que cada safra é só mais um capítulo numa história que já passa dos 700 anos.
Hoje, Tommaso e o tio Emanuele — ele ainda advogado, cada vez mais enólogo nas horas vagas — dividem a linha de frente da propriedade com Sergio, da geração anterior, que conhece cada vinha como a palma da mão. É uma casa que não precisou reinventar a própria história pra fazer sentido no mercado de hoje — precisou só, finalmente, engarrafá-la.
Harmoniza com carnes vermelhas, queijos envelhecidos e caça — o tipo de prato que só combina com um vinho que também levou seu tempo pra existir.
Comments (0)
There are no comments for this article. Be the first one to leave a message!