Giovanna Tantini - A advogada que foi defender uma uva | VignaVita

A Advogada Que Foi Defender uma Uva

Pedro Bueno

Corvina raramente aparece sozinha. É a uva mais associada a Verona, a espinha dorsal técnica do Valpolicella e do Amarone — mas em quase todo lugar em que nasce, alguém decide que ela precisa de companhia: Corvinone pra dar estrutura, Rondinella pra dar corpo, às vezes Molinara pra suavizar. Séculos de tradição enológica trataram a Corvina menos como protagonista e mais como ingrediente principal de uma receita assinada por outra pessoa.

Giovanna Tantini discordou disso profissionalmente antes de discordar disso como enóloga. Formada em Direito, ela exercia advocacia quando a atração da propriedade centenária da família — nas mãos dos Tantini desde o início do século 20, nas colinas morrênicas que descem até o Lago di Garda — falou mais alto. Na segunda metade dos anos 1990 ela assumiu a cantina; em 2002, depois de reformar as instalações e cursar um mestrado em gestão vitivinícola, vinificou sua primeira safra. E decidiu, desde o início, que ia até defender a Corvina — no sentido mais literal da palavra, pra quem larga a toga.

O argumento dela é simples de entender e difícil de provar: que a Corvina, sozinha, sem irmã nenhuma no blend, consegue sustentar um vinho tão elegante e tão capaz de envelhecer quanto qualquer Valpolicella ou Amarone que a leve como coadjuvante. Ela buscou consultores de fora da bolha enológica veronesa — nomes como Federico Curtaz e Roberto Abate — justamente pra fugir dos vícios de quem já tinha decidido, décadas atrás, o que a uva "devia" ser. O resultado é o "Ma.Gi.Co", Corvina di Garda DOC: um tinto fresco, pensado pro verão, sem appassimento, sem meses de barrica, só a fruta da uva em sua forma mais direta.

O Lago di Garda ajuda a explicar por que essa versão da Corvina funciona. As colinas morrênicas — formadas por geleiras que recuaram há milênios — dão um solo calcário misturado com cascalho, drenagem rápida, pouca retenção de água. A brisa constante do lago modera o calor do verão, e a amplitude térmica entre dia e noite mantém a acidez da uva viva. É um terroir completamente diferente do interior mais quente de Verona, onde a mesma Corvina vira matéria-prima pro Amarone denso e alcoólico.

Além do "Ma.Gi.Co", Giovanna Tantini assina mais quatro DOC — Bardolino, o Chiaretto (rosé), o Custoza branco e o "La Rocca", Bardolino de subzona — e dois IGT batizados com o nome dos próprios filhos, Ettore e Greta. Ela também foi pioneira em provar que o Bardolino, historicamente tratado como vinho simples de beber rápido, pode envelhecer em tanque e garrafa sem perder o frescor — outra tese que ela defendeu contra o senso comum da própria denominação.

Hoje, filiada à FIVI (Federação Italiana de Vinhateiros Independentes), Giovanna Tantini segue pessoalmente cada etapa da produção, da vinha à garrafa, numa propriedade de pouco mais de 11 hectares entre os municípios de Castelnuovo del Garda e Sona. É o tipo de teimosia que só faz sentido depois que você prova o resultado: uma Corvina que finalmente fala por si.

Harmoniza com peixes de lago, massas leves e aquele aperitivo de fim de tarde à beira d'água.

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