A Região Que Nunca Quis DOCG Nenhuma

A Região Que Nunca Quis DOCG Nenhuma

Pedro Bueno

O Piemonte coleciona DOCG como troféu, dezenove no total, mais do que qualquer outra região italiana. A Toscana criou um jeito de contornar o sistema inteiro e ainda assim produzir alguns dos vinhos mais respeitados do mundo. O Alto Ádige seguiu um caminho completamente diferente dos dois. Nunca teve pressa nenhuma de conquistar uma DOCG sequer. Até hoje, a região simplesmente não tem nenhuma.

Toda a produção de qualidade do Alto Ádige está concentrada em apenas duas denominações, ambas DOC. A principal se chama Alto Adige, ou Südtirol, em alemão, reconhecida oficialmente em 1975. A segunda é o Lago di Caldaro (Kalterersee, em alemão), específica pra tintos leves da uva Schiava produzidos ao redor do lago que dá nome à denominação. É um contraste e tanto com o Piemonte, que tem 19 DOCG, ou com a Toscana, que tem 11. Mas o Alto Ádige compensa em outro número: mais de 96% de toda a área vinícola da província está protegida pela DOC Alto Adige, o maior percentual do país. A região não tentou empilhar categorias de prestígio. Preferiu garantir que quase toda garrafa que sai dali já nasça dentro de um padrão de qualidade controlado.

A explicação pra esse jeito diferente de fazer as coisas está na própria história da região. Durante o domínio austro-húngaro, o comércio de vinho local ganhou impulso comercial forte, e foi sob administração austríaca que surgiram as cooperativas de viticultores, com uma tradição de qualidade que nenhuma outra região da Itália conseguiu igualar. Até hoje, boa parte da produção do Alto Ádige passa por essas cooperativas, um modelo bem diferente do Piemonte e da Toscana, onde famílias e pequenas propriedades dominam o cenário.

A denominação Alto Adige DOC se divide em subzonas específicas por características de solo e clima, cada uma com nome em italiano e em alemão, reflexo direto do bilinguismo oficial da província: Colli di Bolzano (Bozner Leiten), Meranese di Collina (Meraner Hügel), Santa Maddalena (St. Magdalener), Terlano (Terlaner), Val Venosta (Vinschgau) e Valle Isarco (Eisacktaler). Cada subzona tem regras próprias. Terlano, por exemplo, é reservada a brancos, e quando o rótulo não especifica a uva, "Alto Adige Terlano" precisa ser, no mínimo, metade Pinot Bianco e Chardonnay. Merano trabalha quase exclusivamente com Schiava, uva tão associada à região que, por décadas, suas uvas eram usadas numa prática chamada localmente de "cura da uva", um costume de outono em que visitantes iam até Merano especificamente pra comer uva fresca por seus supostos benefícios à saúde. Bilinguismo e tradição de bem-estar, dois traços que nenhuma outra denominação italiana carrega dessa forma.

Vale lembrar, mesmo sem DOCG nenhuma, que isso nunca impediu o Alto Ádige de produzir alguns dos brancos mais precisos e mais respeitados da Itália, do Kerner ao Gewürztraminer, do Pinot Bianco ao Sauvignon Blanc, e até um Pinot Nero que já foi comparado, ainda no século 19, aos melhores exemplos da Borgonha. A Laimburg, vinícola-laboratório que já apresentamos aqui, existe justamente dentro dessa cultura: uma província que preferiu investir em pesquisa, precisão de solo e consistência de safra a colecionar selos de prestígio. Às vezes, a ausência de uma sigla no rótulo conta uma história tão interessante quanto a presença dela.

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