Pegue duas garrafas de Barolo e uma de Langhe Nebbiolo, feitas pela mesma vinícola, com a mesma uva, às vezes até do mesmo vinhedo, e você vai notar uma coisa pequena e decisiva no rótulo. Uma diz DOCG, a outra diz só DOC. A diferença entre essas duas siglas parece burocrática, mas ela carrega décadas de história, um sistema de controle rigoroso, e é a razão pela qual o Piemonte tem mais denominações de prestígio do que qualquer outra região da Itália.
O sistema nasceu em 1963, quando a Itália criou a Denominação de Origem Controlada, a DOC, pra regulamentar de onde vinha cada vinho e como ele devia ser produzido. Foi uma resposta tardia ao sistema de apelações que a França já tinha havia décadas, e uma tentativa de colocar ordem numa produção que, até então, dependia quase inteiramente da reputação informal de cada região. Fazer parte de uma DOC significa seguir um regulamento específico daquela denominação. Quais uvas podem entrar no vinho, em que proporção, de onde exatamente as uvas precisam vir, qual o rendimento máximo por hectare, e às vezes até o tempo mínimo de envelhecimento antes de a garrafa sair da adega.
A DOCG, Denominação de Origem Controlada e Garantida, chegou depois, em 1980, como um nível acima. As primeiras denominações a receber o selo foram o Brunello di Montalcino e o Vino Nobile di Montepulciano, na Toscana, seguidos rapidamente pelo Barolo e pelo Barbaresco, no Piemonte. A diferença prática entre DOC e DOCG não é só de nome. Pra virar DOCG, uma denominação precisa provar histórico de qualidade consistente ao longo de anos, seguir regras ainda mais rígidas de produção, e, principalmente, passar por uma prova organoléptica obrigatória. Uma comissão de degustadores avalia cada lote antes de autorizar a venda. Só depois disso o vinho recebe o selo numerado que fica preso no gargalo da garrafa, chamado fascetta, a prova física de que aquele lote específico passou pelo controle do Estado italiano.
O Piemonte leva essa hierarquia mais a sério do que qualquer outra região do país. Hoje são 19 DOCG e 41 DOC piemontesas, o maior número de DOCG de toda a Itália, à frente até do Vêneto (14) e da Toscana (11). E, diferente de outras regiões, o Piemonte não tem nenhuma IGT, a categoria mais simples e menos regulada. Ali, ou o vinho segue as regras de uma DOC ou DOCG específica, ou não carrega o nome da região no rótulo.
Essas denominações se espalham por territórios bem distintos dentro do Piemonte. No norte, nas províncias de Novara e Vercelli, ficam o Ghemme e o Gattinara, ambos DOCG, cercados por DOC menores como Bramaterra, Boca, Sizzano e Fara, todas trabalhando o Nebbiolo (localmente chamado de Spanna) em solos vulcânicos que dão um perfil bem diferente do Nebbiolo de Langhe. No Monferrato e no Astigiano, a Barbera assume o protagonismo, com denominações como Barbera d'Asti DOCG e Nizza DOCG, ao lado do Moscato d'Asti e do Asti DOCG, os espumantes mais conhecidos da região. Em Langhe e Roero, além de Barolo e Barbaresco, ficam o Roero DOCG, o Roero Arneis DOCG e o Dolcetto di Diano d'Alba DOCG, esse último uma denominação pequena que levou até 2010 pra sair de DOC e virar DOCG.
Nem todo vinho de qualidade carrega o selo mais alto, e vale usar um exemplo do próprio catálogo pra mostrar isso. O Timorasso dos Colli Tortonesi, a uva branca que quase desapareceu do Piemonte nos anos 1980 e foi resgatada por Walter Massa, segue hoje como DOC, não DOCG, mesmo sendo considerado por muitos especialistas um dos brancos italianos mais capazes de envelhecer bem. Existe, inclusive, um movimento recente pra criar uma subzona chamada Derthona dentro da denominação, ainda travado em debate regulatório em Roma. É um lembrete útil. DOCG é reconhecimento de sistema, histórico comprovado e regras seguidas à risca, não necessariamente o teto de qualidade que a uva é capaz de atingir. Um DOC bem feito, de produtor sério, pode facilmente superar um DOCG genérico. A sigla no rótulo conta uma história sobre regras e tradição. A garrafa em si ainda precisa ser provada pra contar o resto.
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