Existe uma expressão que Andrea Lavagnoli usa pra descrever a própria posição na família: "o filho da revanche". Não é exagero nem drama gratuito — é a forma mais honesta que ele encontrou de resumir o peso e o orgulho de carregar adiante um projeto que os próprios pais só conseguiram começar depois de décadas trabalhando a terra de outra pessoa.
A história da Cantina Lavagnoli começa na Valsquaranto, um vale pequeno e fechado nos arredores de Verona, na fração de Pigozzo — um lugar que quem conhece descreve como "íntimo como uma sala de estar", cercado de colina de todos os lados. Ali, a família trabalhava havia gerações no sistema de mezzadria: cultivavam a terra de outra pessoa, dividindo o que produziam, sem nunca ter um pedaço de chão que fosse realmente seu. Uva, azeitona, cereja, damasco, cereais, uma pequena estrebaria — a agricultura de subsistência clássica do interior italiano, onde ninguém aposta tudo numa coisa só.
A virada veio em 1999. Carlo Lavagnoli, que já vinha do campo, e a esposa Miriam, que largou o trabalho numa fábrica pra apostar ao lado dele, decidiram comprar os primeiros terrenos próprios. Não foi decisão fácil nem bem vista: Miriam contaria depois que as amigas caçoavam dela por namorar "um cara que tinha uns campos" — trabalho mal visto na época, ainda mais pra uma mulher se envolver. Ela segurou a decisão mesmo assim, e foi ela, segundo a própria família, quem deu a Carlo a coragem de arriscar.
Nem tudo foi aceito em silêncio. Há uma história que a família ainda conta: quando o avô de Andrea viu como o filho e a nora queriam podar as vinhas — método diferente do que ele sempre tinha feito — ficou tão bravo que sumiu do vinhedo por dias, em protesto silencioso. Carlo e Miriam não cederam. E então, uma manhã, o avô simplesmente reapareceu e perguntou: "o que precisa ser feito hoje?" — aceitação sem discurso nenhum, do jeito que só quem trabalha a terra há uma vida inteira sabe fazer.
Hoje é Andrea, o primogênito, quem conduz a produção — sentindo, nas próprias palavras, uma responsabilidade grande com os pais que arriscaram tudo pra sair da condição de meeiros. A largada não veio fácil: o primeiro vinho da casa foi engarrafado em 2015, ano de safra excelente pra praticamente toda a Valpolicella — menos pra eles. Na noite de 19 de maio daquele ano, duas granizadas seguidas atingiram a pequena Valsquaranto e destruíram cerca de 80% da colheita. Foi, paradoxalmente, esse desastre que deu à família a força pra continuar acreditando no projeto — e é por isso que 2015, apesar de tudo, ainda é lembrado como uma safra memorável na casa.
Até cerca de quinze anos atrás, a Valsquaranto inteira funcionava basicamente como bacia de fornecimento pra Cantina Sociale di Quinto — famílias de agricultores entregando a própria uva pra cooperativas grandes, sem nunca engarrafar nada com o próprio nome. A Lavagnoli é uma das poucas exceções nascidas nesse vale pouco conhecido até dentro da própria Valpolicella: hoje trabalham as vinhas em sistemas mistos — 70% em Guyot simples, 30% na tradicional pérgola veronesa — com colheita inteiramente manual, produzindo Valpolicella, Ripasso e Amarone que carregam o nome da família, não mais o de uma cooperativa.
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