Montalcino e Montepulciano ficam a menos de 40 quilômetros uma da outra, na mesma Toscana, cultivando basicamente a mesma uva — e ainda assim, poucas denominações italianas sofrem tanto com a comparação quanto o Vino Nobile di Montepulciano sofre com o Brunello di Montalcino. É esquisito, porque a história deveria favorecer as duas igualmente: quando a Itália criou sua primeira leva de DOCG, em 1980, o Vino Nobile entrou na lista ao lado do Brunello, do Barolo e do Barbaresco — o mesmo status, o mesmo selo, o mesmo reconhecimento oficial de excelência. Só que reconhecimento oficial e reputação de mercado nunca andaram exatamente juntos.
A uva é, tecnicamente, a mesma: Sangiovese. Mas cada região deu a ela um apelido e uma regra diferente. Em Montalcino, é o "Sangiovese Grosso", e o Brunello exige 100% da uva sozinha, sem blend nenhum, envelhecida no mínimo dois anos em madeira e cinco anos ao todo antes de sair da adega — um regulamento pensado pra produzir vinhos grandes, densos, de guarda longa, num clima mais próximo do mar e mais quente. Em Montepulciano, a mesma uva vira "Prugnolo Gentile", e o Vino Nobile permite até 20% de outras castas no blend — geralmente Canaiolo Nero, Mammolo ou, no caso de alguns produtores, Colorino — envelhecido por um período mais curto. O resultado costuma ser um vinho mais esguio, mais especiado, menos exibido: elegância em vez de potência.
É exatamente nesse território — a subzona de Cervognano, ao sudeste da cidade de Montepulciano, com solo argilo-calcário cheio de fragmento de concha de um mar que secou há milhões de anos — que a família Natalini construiu a Le Bèrne. E a história deles ajuda a entender por que Montepulciano ainda vive à sombra da vizinha.
Nos anos 1960, Egisto Natalini e o filho Giuliano não eram donos de terra nenhuma — eram meeiros, cultivando um pedaço de Cervognano que pertencia a outra pessoa, plantando de tudo um pouco, do jeito que a agricultura de subsistência sempre funcionou naquela parte da Toscana. Foi só quando decidiram comprar o próprio podere que a história virou outra: abandonaram a policultura, plantaram a primeira vinha de verdade em 1969, e deram início ao que viria a se tornar Le Bèrne — nome que vem do etrusco "verna" ou "verena", algo como "a colina", numa homenagem direta à geografia que sustenta a propriedade até hoje.
Giuliano e a esposa Ada tocaram a vinícola por décadas, ela cuidando também das uvas de Vin Santo com tanto carinho que um dos vinhos da casa carrega o próprio nome dela. Mas o Vino Nobile só ganhou rótulo próprio bem mais tarde: foi o filho de Giuliano, Andrea — formado em agronomia — quem trouxe o enólogo Paolo Vagaggini pra casa e engarrafou, em 1997, o primeiro Vino Nobile di Montepulciano assinado Le Bèrne. Antes disso, a uva da família ia embora em blend, vendida a granel, sem nunca carregar o próprio nome. Andrea depois viraria presidente do Consórcio do Vino Nobile di Montepulciano, entre 2013 e 2019 — o meeiro que virou dono virou, então, a própria voz institucional da denominação.
Hoje, os quinze hectares da Le Bèrne em Cervognano — a 350 metros de altitude, entre pedra e concha fóssil — produzem o Rosso di Montepulciano mais imediato, o Vino Nobile de safra e a Riserva, envelhecida por trinta meses entre botas grandes de carvalho da Eslavônia e barricas francesas menores. É um estilo que aposta em transparência de terreno, sem correr atrás da potência que definiu o Brunello. Talvez seja exatamente esse o motivo de Montepulciano nunca ter alcançado a fama da vizinha: enquanto Montalcino construiu identidade em torno do vinho grande, Montepulciano — e a Le Bèrne, em particular — sempre preferiu deixar o lugar falar mais alto do que o rótulo.
Combine com o que a própria Toscana sempre serviu ao lado desse vinho: massas com ragù de caça, pecorino curado, carnes assadas de fim de semana.
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