Nos anos 1940, um nobre italiano chamado Mario Incisa della Rocchetta reparou que as colinas de Bolgheri, perto do mar na Toscana, tinham um solo parecido com o de Bordeaux. Ele plantou Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, uvas que não tinham lugar em nenhum regulamento toscano da época, e produziu um vinho que, por décadas, só podia ser vendido como "vino da tavola", a categoria mais simples e menos regulada que existe na Itália. Esse vinho se chama Sassicaia. Hoje é um dos rótulos italianos mais caros e cobiçados do mundo, e nunca precisou de DOCG pra chegar lá.
Essa história explica melhor do que qualquer regulamento por que a Toscana tem uma relação diferente com o sistema DOC e DOCG do resto da Itália. A região soma hoje 11 DOCG, 41 DOC e, mais importante pra esse caso, 6 IGT (Indicação Geográfica Típica), a categoria mais aberta, que permite uvas fora do regulamento tradicional. O Piemonte, pra comparar, não tem nenhuma IGT. Na Toscana, foi justamente essa categoria mais livre que abrigou os chamados Super Tuscans, vinhos como o próprio Sassicaia, o Tignanello e o Ornellaia, que usaram uvas internacionais (Cabernet, Merlot) fora das regras clássicas do Sangiovese e, mesmo carregando o selo mais simples do sistema, se tornaram alguns dos vinhos mais respeitados e mais caros do país. É a prova mais dramática de que classificação legal e qualidade percebida no mercado nem sempre andam juntas.
A Toscana também guarda um recorde histórico curioso. A Vernaccia di San Gimignano, um branco produzido no comune medieval de San Gimignano desde pelo menos o ano 1000, citado por Dante e Boccaccio e servido nos banquetes dos Médici durante o Renascimento, foi o primeiro vinho de toda a Itália a receber o selo DOC, em 1966. Décadas depois, em 1993, virou DOCG, e segue até hoje como o único branco toscano a carregar esse selo. Todo o resto das DOCG da região é dominado por Sangiovese, em versões e proporções diferentes.
O Chianti, sozinho, já mostra como essa hierarquia pode ser mais complicada do que parece. Existem duas DOCG separadas com esse nome. A Chianti DOCG cobre uma área enorme, espalhada por sete subzonas (Colli Aretini, Colli Fiorentini, Colli Senesi, Colline Pisane, Montalbano, Montespertoli e Rufina) que atravessam quase toda a região. Já a Chianti Classico DOCG é o território histórico original, mais restrito, entre Florença e Siena, considerado por muitos a versão mais séria e concentrada do estilo. As duas usam a mesma uva base, mas carregam pesos bem diferentes na reputação do mercado.
O Brunello di Montalcino nasceu de uma ideia do farmacêutico Clemente Santi, no século 19, e hoje exige um dos regulamentos mais rígidos da Itália: Sangiovese 100%, sem blend, com envelhecimento mínimo de cinco anos antes de sair da adega. O Vino Nobile di Montepulciano, onde a mesma uva é chamada de Prugnolo Gentile, foi uma das primeiras quatro denominações a receber DOCG, em 1980, ao lado do próprio Brunello. O Carmignano é um caso à parte, DOCG que permite oficialmente Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc no blend com o Sangiovese, uma mistura que ali tem séculos de tradição documentada, bem antes de qualquer Super Tuscan aparecer no mapa. Completam a lista o Morellino di Scansano, versão mais costeira e solar do Sangiovese na Maremma, e denominações menores como Montecucco Sangiovese, Suvereto e Rosso della Val di Cornia.
No catálogo que trazemos pra cá, essa hierarquia aparece em três frentes diferentes. O Castello Tricerchi e a Le Potazzine trabalham dentro do regulamento mais rígido de todos, o Brunello di Montalcino DOCG. A Le Bèrne assina o Vino Nobile di Montepulciano DOCG, com a mesma uva sob outro nome e outra denominação. E a Castellaccio segue o Chianti Classico DOCG, no formato mais tradicional que a região conhece. Nenhum deles precisou virar Super Tuscan pra provar seu valor. Mas vale lembrar, sempre que uma garrafa trouxer só a sigla IGT no rótulo, que a Toscana já provou, décadas atrás, que a etiqueta mais simples do sistema pode esconder um dos vinhos mais importantes da história recente da Itália.
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