O Vinho Mais Famoso da Itália Nem Tem DOCG

O Vinho Mais Famoso da Itália Nem Tem DOCG

Pedro Bueno

Nos anos 1940, um nobre italiano chamado Mario Incisa della Rocchetta reparou que as colinas de Bolgheri, perto do mar na Toscana, tinham um solo parecido com o de Bordeaux. Ele plantou Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, uvas que não tinham lugar em nenhum regulamento toscano da época, e produziu um vinho que, por décadas, só podia ser vendido como "vino da tavola", a categoria mais simples e menos regulada que existe na Itália. Esse vinho se chama Sassicaia. Hoje é um dos rótulos italianos mais caros e cobiçados do mundo, e nunca precisou de DOCG pra chegar lá.

Essa história explica melhor do que qualquer regulamento por que a Toscana tem uma relação diferente com o sistema DOC e DOCG do resto da Itália. A região soma hoje 11 DOCG, 41 DOC e, mais importante pra esse caso, 6 IGT (Indicação Geográfica Típica), a categoria mais aberta, que permite uvas fora do regulamento tradicional. O Piemonte, pra comparar, não tem nenhuma IGT. Na Toscana, foi justamente essa categoria mais livre que abrigou os chamados Super Tuscans, vinhos como o próprio Sassicaia, o Tignanello e o Ornellaia, que usaram uvas internacionais (Cabernet, Merlot) fora das regras clássicas do Sangiovese e, mesmo carregando o selo mais simples do sistema, se tornaram alguns dos vinhos mais respeitados e mais caros do país. É a prova mais dramática de que classificação legal e qualidade percebida no mercado nem sempre andam juntas.

A Toscana também guarda um recorde histórico curioso. A Vernaccia di San Gimignano, um branco produzido no comune medieval de San Gimignano desde pelo menos o ano 1000, citado por Dante e Boccaccio e servido nos banquetes dos Médici durante o Renascimento, foi o primeiro vinho de toda a Itália a receber o selo DOC, em 1966. Décadas depois, em 1993, virou DOCG, e segue até hoje como o único branco toscano a carregar esse selo. Todo o resto das DOCG da região é dominado por Sangiovese, em versões e proporções diferentes.

O Chianti, sozinho, já mostra como essa hierarquia pode ser mais complicada do que parece. Existem duas DOCG separadas com esse nome. A Chianti DOCG cobre uma área enorme, espalhada por sete subzonas (Colli Aretini, Colli Fiorentini, Colli Senesi, Colline Pisane, Montalbano, Montespertoli e Rufina) que atravessam quase toda a região. Já a Chianti Classico DOCG é o território histórico original, mais restrito, entre Florença e Siena, considerado por muitos a versão mais séria e concentrada do estilo. As duas usam a mesma uva base, mas carregam pesos bem diferentes na reputação do mercado.

O Brunello di Montalcino nasceu de uma ideia do farmacêutico Clemente Santi, no século 19, e hoje exige um dos regulamentos mais rígidos da Itália: Sangiovese 100%, sem blend, com envelhecimento mínimo de cinco anos antes de sair da adega. O Vino Nobile di Montepulciano, onde a mesma uva é chamada de Prugnolo Gentile, foi uma das primeiras quatro denominações a receber DOCG, em 1980, ao lado do próprio Brunello. O Carmignano é um caso à parte, DOCG que permite oficialmente Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc no blend com o Sangiovese, uma mistura que ali tem séculos de tradição documentada, bem antes de qualquer Super Tuscan aparecer no mapa. Completam a lista o Morellino di Scansano, versão mais costeira e solar do Sangiovese na Maremma, e denominações menores como Montecucco Sangiovese, Suvereto e Rosso della Val di Cornia.

No catálogo que trazemos pra cá, essa hierarquia aparece em três frentes diferentes. O Castello Tricerchi e a Le Potazzine trabalham dentro do regulamento mais rígido de todos, o Brunello di Montalcino DOCG. A Le Bèrne assina o Vino Nobile di Montepulciano DOCG, com a mesma uva sob outro nome e outra denominação. E a Castellaccio segue o Chianti Classico DOCG, no formato mais tradicional que a região conhece. Nenhum deles precisou virar Super Tuscan pra provar seu valor. Mas vale lembrar, sempre que uma garrafa trouxer só a sigla IGT no rótulo, que a Toscana já provou, décadas atrás, que a etiqueta mais simples do sistema pode esconder um dos vinhos mais importantes da história recente da Itália.

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