Pinot Noir não é só na Borgonha

Pinot Noir não é só na Borgonha

Pedro Bueno

Em 1866, um estudioso escreveu sobre uma uva que os produtores do Tirol vinham cultivando havia décadas: "a casta Clevner, também chamada Blauer Burgunder, produz geralmente um resultado excelente, um vinho que pode ficar ao lado de qualquer Borgonha francês." A uva em questão era o Pinot Noir — e o comentário, feito num vale alpino a centenas de quilômetros da França, já apontava pra algo que a Itália levaria mais um século pra provar em definitivo: que o Pinot Noir não pertence só à Borgonha.

O Pinot Noir chegou ao Alto Ádige (então parte do império austro-húngaro) no início do século 19, trazido diretamente da Borgonha por famílias e instituições que enxergaram no clima alpino da região algo parecido com o que a uva já conhecia na França. O primeiro registro oficial da variedade data de 1838; em 1894, o pesquisador Edmund Mach publicou a primeira descrição analítica detalhada dos vinhos produzidos com ela. Mosteiros beneditinos da região — como o que hoje é a propriedade Muri-Gries, nos arredores de Bolzano — documentam cultivo contínuo da uva desde o século 19, uma tradição que sobrevive até hoje.

Foi, porém, numa subzona específica que o Pinot Noir encontrou seu endereço mais respeitado: Mazzon (ou Mazon, em alemão), nas encostas voltadas a oeste e sul acima do vale do rio Adige, entre 350 e 450 metros de altitude. No fim do século 19, um nobre local levou mudas de Pinot Noir direto da Borgonha até lá — e o terreno fez o resto. O solo de Mazzon é geologicamente bizarro: rocha estratificada de mais de 200 milhões de anos, restos fossilizados de um recife de coral que um dia esteve debaixo do mar, hoje misturado a pórfiro e calcário. É esse solo, combinado com a luz da tarde suavizada pela orientação da encosta e o frescor que só a altitude alpina entrega, que dá ao Pinot Noir do Alto Ádige sua acidez viva e sua mineralidade quase salgada — características que o diferenciam claramente do estilo mais aveludado que a Borgonha entrega em anos mais quentes.

Hoje, o Alto Ádige tem cerca de 580 hectares de Pinot Noir plantados — cerca de 10% de toda a área vinícola da região — e, mesmo sendo uma fração pequena se comparado à Borgonha ou a outras partes da Itália, é considerado por muitos enólogos como o solo italiano mais talhado pra essa uva notoriamente difícil. Localmente, o Pinot Noir é conhecido também pelo nome alemão Blauburgunder — literalmente "borgonha azul" —, um lembrete direto, gravado no próprio nome, de onde a uva veio.

É esse capítulo alpino da história do Pinot Noir que a Laimburg carrega adiante em seu Pinot Nero Riserva "Blauburgunder": uma vinícola-laboratório da província de Bolzano, fundada em 1975, que trabalha vinhedos espalhados por diferentes altitudes do Alto Ádige justamente pra entender o que cada terreno é capaz de extrair de uvas como essa. O resultado é um Pinot Noir de cor clara, taninos macios e acidez que carrega, mesmo sem dizer o nome, um pouco daquele elogio escrito há quase dois séculos: prova de que a Itália também sabe fazer essa uva falar.

Mais posts

Comentários (0)

Não há comentários para este artigo. Seja o(a) primeiro(a) a deixar uma mensagem!

Deixe um comentário

Atenção: os comentários tem de ser aprovados antes de serem publicados