Ninguém Acreditava Nessas Vinhas

Ninguém Acreditava Nessas Vinhas

Pedro Bueno

Existe um documento do século 14 — a Ruralia Commoda, uma espécie de enciclopédia agrícola escrita por Pietro de' Crescenzi — que já menciona uma uva branca cultivada nas colinas ao redor de Tortona, no sudeste do Piemonte. É uma das referências mais antigas que se tem de qualquer variedade branca da região. No século 19, essa mesma uva — o Timorasso — estava entre as brancas mais plantadas do Piemonte, lado a lado com a Cortese.

E então, quase desapareceu.

A filoxera, que destruiu boa parte dos vinhedos europeus no fim do século 19, obrigou os produtores a replantar praticamente do zero — e, na hora de escolher o que voltar a cultivar, quase ninguém escolheu o Timorasso de novo. A uva é difícil: amadurece tarde, produz pouco, tem maturação irregular (o cacho amadurece de forma desigual, dificultando a colheita), e é vulnerável a doenças. A Cortese, mais fácil de cultivar e mais fácil de vender, tomou seu lugar. Ao longo do século 20, o Timorasso foi sumindo — não de uma vez, mas aos poucos, vinhedo por vinhedo, decisão por decisão, até restar quase nada: por volta de 1990, menos de meio hectare seguia plantado em toda a região.

A história poderia ter parado aí, se não fosse por um enólogo chamado Walter Massa. Em 1978, ele assumiu a vinícola da própria família, fundada em 1879 em Monleale — e, diferente da maioria dos colegas da época, mais interessados em uvas internacionais na moda, ele foi atrás justamente do que a região estava abandonando. Em 1985, plantou o vinhedo Costa del Vento inteiro de Timorasso. Quando foi pedir mudas e parcelas de vinhas antigas aos vizinhos, a resposta foi ceticismo — "ninguém acreditava nessas vinhas", ele contaria depois. Em 1987, engarrafou sua primeira safra experimental: pouco mais de 500 garrafas, tiradas de cerca de 400 pés espalhados pelas propriedades que conseguiu reunir.

O nome que ele deu ao vinho também era um resgate: Derthona, o antigo nome romano de Tortona, homenageando uma história ainda mais funda do que a da própria uva. A aposta de Massa levou quase duas décadas pra se provar: em 2005, trinta produtores dos Colli Tortonesi já produziam, juntos, 120 mil garrafas de Timorasso — 20 mil delas só da Vigneti Massa. No mesmo período, o Timorasso de Massa (ao lado do colega Claudio Mariotto) recebeu o Tre Bicchieri, a maior honraria da Guida dei Vini d'Italia — o tipo de reconhecimento que transforma resgate em movimento. Hoje, a região já soma mais de 500 hectares plantados, e o Timorasso é considerado um dos casos mais bem-sucedidos de resgate de uva autóctone em toda a Itália.

O que fez a aposta valer tanto a pena não foi só a sobrevivência da uva — foi o que ela é capaz de fazer na garrafa. Jovem, o Timorasso mostra fruta branca madura, pêssego, damasco, casca de cítrico. Mas é com o tempo que ele revela o que realmente o diferencia da maioria dos brancos italianos: notas de mel, amêndoa, sílex, fumaça, e aquele toque mineral quase de hidrocarboneto que lembra um Riesling alemão maduro — um perfil que a maioria dos brancos do país simplesmente não tem estrutura pra desenvolver, porque quase nenhum é feito pra guardar tanto tempo.

É esse legado que produtores de Langhe, como a Voerzio Martini, carregam adiante hoje — trabalhando o Timorasso Derthona tanto na versão de safra quanto na Riserva, deixando o tempo de garrafa fazer, de novo, o que Walter Massa provou décadas atrás: que essa uva tem muito mais a dizer do que o século 20 quis ouvir.

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